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Jean Oliveira Na mente, canções decoradas que levavam sentimentos diretamente para a alma contida naquele corpo descansado depois de uma boa noite de sono. Ela retirou a maçã da bolsa e olhou seus tênis All Star brancos sobre os óculos escuros que sempre a acompanha. A moça, já na universidade, mas com coração de menininha, tentava achar uma explicação para a ansiedade que lhe acompanhara desde a noite anterior. Rosamaria se lembrou de quando ainda era criança e achava que era irmã do vento. Com ele, brincava todos os dias - sorria, cantava e conversava. A pequena menina de rosto tão branco que o sangue lhe ruborizava as bochechas continuamente, tinha um ar angelical que combinava com sua solitária mania de brincar com ar. Ela era uma das poucas crianças da rua que não foi criada em frente à TV. Dedicava-se, com prazer, ao seu mundo imaginário. Uma nuvem, uma folha de árvore ao chão, uma caixa vazia ou um amigo irreal eram suficientes para compor o mundo encantado da bela anjo, que agora crescera e tentava se encaixar nos sonhos das pessoas de sua idade. Parecia-lhe que todo mundo tinha 20 e poucos anos e não sabia ao certo se gostava disso. A maçã já estava pela metade quando Rosamaria se viu cercada de amigos na cantina da faculdade. Prestava atenção às conversas, distribuía sorrisos entre seus comentários e estava feliz.
Da maçã restava apenas o talo e da disposição despretensiosa da manhã uma pequena fatia. O cinismo da vida corria seu corpo como se a bílis tivesse estourado em suas entranhas e aos poucos fosse corrompendo suas veias. Sentia que estava virando adulta apesar de não querer. Rosamaria se distraiu com o sol que batia sobre a escadaria do pátio da faculdade. Fez cenários imaginários e sentiu vontade de escrever uma canção. Queria criar, em letra, uma extensão de si mesma. Deixar registrado ao mundo aquilo que já não cabia apenas em seu coração.
O mundo que amadurecia com ela era doído demais para ser disfarçado em cabelos novos, vestidos da moda e perfumes fabricados em série que prometia à massa que cada um seria diferente, único. "Como posso ficar fascinada com as espumas que se formam na praia tendo um mar tão imenso à minha frente? A vida é mais", pensou ela antes de ser interrompida pelo namorado. Ela estava só no seu mundo e isso sim não lhe incomodava. Já era quase meio-dia quando ela deixou o portão da faculdade para trás. Nas mãos os livros, um caderno, as chaves do carro e um salgado de bacon, que era o seu preferido. A poucos metros depois depositou o alimento ao lado de um homem que dormia na porta de um bar ainda fechado. Tentou não refletir sobre isso, fechou a porta do carro, ligou o veículo e acelerou. Não queria pensar em nada, mas a letra da canção começou a surgir. Rosamaria cantarolava: "Cansei de tentar ser igual a todo mundo/O vento me soprou que sou única/Quero ser feliz acreditando em mim/No meu mundo só entra quem eu convido". A canção nunca foi terminada, mas a pequena menina soube reconhecer o verdadeiro tesouro da vida: não perder a individualidade apenas para ser aceita. Ela queria ser e foi mais do que espuma fugaz, mergulhou no mar da vida e foi feliz ao se ver sereia Escrito por JEAN OLIVEIRA às 07h56
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