SUKITA, ADEUS!

Juventude, vida e novembro

 

 

Jean da Silva Oliveira

 

O médico cardiologista Celso Biagi, de Araçatuba, em entrevista à Folha da Região, disse que os jovens são as maiores vítimas de enfarte fatal por acreditarem que são semideuses e não estão expostos à morte. A frase do especialista, além da denúncia grave sobre saúde pública, traz uma afirmação passível de reflexão. Da juventude, é inerente o sentimento de que nada pode nos roubar a vida. Tudo é para sempre e a velhice é certa na mente dos que têm pouca idade.

Um belo retrato do pensamento de nossa juventude são os versos iniciais da canção “Tempo Perdido” da banda Legião Urbana. Nela, o compositor Renato Russo afirma: “todos os dias quando acordo, não tenho mais o tempo que passou, mas temos muito tempo. Temos todo o tempo do mundo”. Ao falar sobre as agonias do presente com perspectivas de um futuro melhor construído com “suor sagrado”, a canção faz um retrato desta suposta imortalidade.

Infelizmente, esta vida “para sempre” não é realidade. E a gente vai aprendendo isso toda vez que somos obrigados a sepultar nossos amigos de pouca idade. Em novembro do ano passado, os acadêmicos de jornalismo do Centro Universitário Unitoledo despediram-se do brilhante aluno Alex Cardoso, que deixou esta vida aos 19 anos. Neste novembro de 2008, quem deixou a convivência daqueles que o amavam foi o impressor e entregador de jornal Paulo Ricardo Ângelo, 33 anos, o Sukita. Mais um jovem que, com sua despedida, nos lembra que a vida é algo muito frágil, sim.

O final do ano começa com uma sórdida coincidência. Duas fatalidades que nos lapida a alma ao nos forjar o aprendizado que não basta a gente ter fé que haverá futuro, que se a coisa apertar, a gente improvisa e um novo destino vai se desenhar no horizonte. Podemos fazer planos, não viver hoje para colher no futuro, mas não há futuro certo, há esperança e nenhuma garantia de que o amanhã vá raiar para todos.

Nem poesias, nem rezas e nem desabafos farão que a gente tenha uma segunda chance. A morte nos espreita na esquina e a vida nos sorri apenas com as esperança. E é deste sentimento positivo que devamos nos alimentar para continuar na jornada, enquanto ela nos é dada pela providência divina.

Atropelado na avenida Brasília, às 5h30 do primeiro dia do penúltimo mês do ano, o Sukita partiu. Seu corpo ficou, sob nossos olhares incrédulos, ao nos torturar com a lição de que o amanhã é uma suposição que nos ilude. Só temos mesmo é o hoje. Vivamos o hoje.



 Escrito por JEAN OLIVEIRA às 13h10 [] [envie esta mensagem] []




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