SIMPLES, ASSIM!

Teve boa repercussão o último texto que publicamos aqui na Folha, "Ser pobre é filosofia". Terminamos concluindo que, apesar de toda evolução intelectual-filosófica, a vida segue na simplicidade do cotidiano.
Cada um vai fazendo o melhor, naquele momento. Arrependimentos por atos e não-atos são normais, mas não podemos esquecer que no exato instante em que deveríamos ter feito algo, ou simplesmente nos calado e assim não fizemos, tomamos a atitude que nosso conjunto de valores achou mais assertiva.
Devemos nos permitir à simplicidade do viver. Como dissemos no texto anterior, aproveitar a garrafa plástica do refrigerante para botar água na geladeira; secar o tênis atrás da geladeira; esquentar a ponta da caneta para ver se ela volta a escrever e pedir para o filho ficar abanando o churrasco com tampa de caixa de sapato, nos humaniza.
Em recente entrevista com o psiquiatra José Fraguas Neto, de Araçatuba, aprendemos que todos nós temos alguma psicopatologia. Todos temos, dentro de nós, um pouco de vítima e um pouco de psicopata. Vale-me, Deus!
Ele disse, em outras palavras, mais científicas e bonitas, que a gente vive sobre uma linha fina que nos impede de viver nos extremos da docilidade e da barbárie. O homem é um animal, não podemos nos esquecer disso, e se não houvesse a filosofia com sua ética e a religião, com sua moral, estaríamos andando, ainda, em bando, em densa selva, caçando para comer.
A vida é simples e o que nos pega é esta mania de assimilar tudo o que vemos e vivemos e transformar isso em valores.
Ter uma camisa para proteger do sol e do frio, e ainda poder andar pelas ruas sem ferir a moral que nos norteia, é importante. Mas porque temos que colocar uma etiqueta na peça de roupa que nos separa em ricos e pobres? Em elegantes ou rotos?
Nossas psicopatologias são recalcadas pela cultura vigente do meio em que vivemos, mas temo que a gente esteja fazendo compensações perigosas. O ter sobre o ser nos lembra da irracionalidade dos sentimentos. Somos bichos sociais!
Como prega a música de Caetano Veloso regravada pela banda mineira Skank para abertura de recente novela global, não se amarre em dinheiro, não, mas à beleza.
Usar pregador de roupa para manter fechado saco de açúcar, arroz e farinha; levantar de noite com sede para tomar água da pia do banheiro com a mão e entrar em loja de R$ 1,99 e buscar um presente legal, são exercícios diários.
Viver pode ser bem melhor quando nos permitimos simplesmente estar em sintonia com o que temos em mãos, e não presos a um mundo que fixamos no subconsciente que rotula valores irreais a coisas, situações, atitudes e a pessoas. Mastigue o gelo que sobrou do copo de suco, sem culpa!
Escrito por JEAN OLIVEIRA às 20h41
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SER POBRE É FILOSOFIA
Ser pobre, de dinheiro, é claro, leva o homem a ser valorizado e prático. O primeiro adjetivo vem do fato de que ele, em um mundo de mulheres interesseiras, oportunistas, só recebe atenção das sinceras e verdadeiras. Já a praticidade acontece em sua vida por não precisar levar a carteira para todos os lugares que for, pois ela está sempre vazia.
Podemos dizer que os membros desta classe têm o gozo de ter um cotidiano saudável. Não há emoções fortes que lhe façam ter estresse. Como sabem que o dinheiro não vai chegar até o final do mês, sua rotina é muito previsível. E o dinheiro, nunca fará o pobre perder amigos. Com sua fama de pé-rapado, ninguém lhe pede dinheiro emprestado e dependendo do seu grau de pobreza, eles nem serão mais seus amigos.
Os homens, de livros em mãos, se debruçam na janela, observam as pessoas e as estatísticas e chegam a conclusões fantásticas. Platão teve a percepção dos dois mundos: um que muda constantemente e percebemos pelos sentidos, e outro que não muda nunca - o das idéias perfeitas.
Nietzsche viu a morte de Deus, crendo que a vida moderna sufocaria fatalmente a metafísica da qual a religião se apoderou da filosofia pura para pregar a existência de outro mundo.
Idéias vão, modas se estabelecem, filosofias se superam e o pobre, nem aí. Segue sua vida invejável. Enquanto os seus vizinhos viajam, pegam trânsito no feriado e sofrem com as praias lotadas, ele descansa na comodidade de sua casa, com a família, compartilhando o pouco, mas sagrado.
A ele não interessa as conjecturas da pós-modernidade e a revisão sociológica da posição do homem como agente de sua história. Como tem de trabalhar aos domingos para fazer horas extras, não precisa nem assistir aos programas que são campeões de audiência sem conteúdo.
Pense bem, caro leitor. O que importa a revolução socrática com as discussões sobre a ética ao pobre homem quando ele tem que amarrar a perna dos óculos com arame e prender o cachorro com fio de luz? Ele não vai calçar o sofá sem perna com tijolo para pensar na influência positivista na formação social do Brasil, mas sim para chorar no último capítulo da novela e lamber a tampa metálica do iogurte.
A vida é muito mais simples quando se coloca arranjo de fruta de plástico na mesa da sala, se compra churrasquinho com vale transporte, quando se conversa com um amigo, cada um de um lado da rua e ao dar uma festa, é preciso pedir mesa e cadeira para os vizinhos. É menos inquietante entrar de loja em loja perguntando os preços e dizer para o vendedor: "só tô dando uma olhadinha, qualquer coisa volto mais tarde", do que ficar horas pensando no papel social que exerce no mundo capitalista.
Ser pobre, na verdade, também é filosofia, mesmo que não se perceba. Precisa de reflexão e poder de imaginação para copiar modelo inteiro da vitrine para depois fazer em casa, discutir na feira e guardar refrigerante com colher pendurada na boca, para não perder o gás. Este último, inclusive, pode ser facilmente classificado com um exercício científico comparado aos que os alquimistas faziam para transformar cobre em ouro. E a vida segue, simples assim!
Escrito por JEAN OLIVEIRA às 20h40
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